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Conversando com o professor JM


Que não se fechem (ê) as portas do conhecimento (continuação da edição anterior)
Você é analfabeto?
Você é analfabeto funcional?
Você sabe ler e escrever?
Você pensa?
Se você pensa, então você não é analfabeto.
Vamos à leitura do texto?
Analfabeto, em português, numa abordagem histórica (1500, carta Pero Vaz de Caminha, 1º texto do português no Brasil) seria aquele que não dominasse a ortografia da língua portuguesa, baseada na etimologia, no estudo e na identificação do vocábulo-origem da palavra escrita. Exemplos: Juçara, com Ç, porque é de origem Tupi, maisena, com S, porque de origem francesa: maïs (milho) + ena (produto químico).
Para ser alfabetizado, o falante de Língua Portuguesa deveria ser, antes de tudo, um dominador do latim, do grego, do alemão, do árabe, do tupi-guarani, do inglês, para, a posteriori, falar e grafar a sua própria língua. A bobagem e o absurdo, aqui, são axiomáticos.
No extremo oposto de pensamento inteligente e engajado, afirmava Paulo Freire, em seu mais politicamente lúcido trabalho, A Pedagogia do Oprimido, que ANALFABETO É AQUELE QUE NÃO PENSA, em consonância com o postulado de que A LÍNGUA É O CÓDIGO DE PENSAR O MUNDO.
Oprimir um povo é impedi-lo de pensar: na medida em que o homem não pensa ele deixa de ser um animal lingüístico e se iguala a todos os outros animais (bastando o comer, o beber, o 'direito' ao Bolsa Família).
"Não basta saber ler mecanicamente 'Eva viu a uva'. É necessário compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir uvas e quem lucra com esse trabalho", sustenta Paulo Freire.
A pedagogia do oprimido é a pedagogia de um POVO oprimido, de uma educação tirana, de um sistema de ensino pré-fabricado, de ideologias e valores que já são impostos AO OPRESSOR muito antes de O OPRIMIDO chegar à escola. E no final das contas o opressor acaba por ser também, de alguma forma, um oprimido.
E por que não se libertar?
Antes da libertação teríamos que falar sobre a conscientização do oprimido em relação a sua situação social, porque somente após essa conscientização, o oprimido sentirá necessidade de se libertar. E a partir do momento em que ele se depara com esta necessidade nasce um embate dentro de si mesmo: o desejo de liberdade e o medo da própria. Porque libertar-se, no caso, seria encarar quebra de valores, alterações ideológicas, raciocínio e tudo isso exige esforço, o esforço do pensar. Não é fácil pensar, pois o pensamento não é maquinal. Pensamento é arte, a arte de formular conceitos e não aceitar automaticamente conceitos já estabelecidos, ou preconceitos. Mais que isso, quem pensa passa de um estado letárgico para um estado instigador, que praticamente EXIGE atitudes transgressivas da parte do pensante. E a transgressão talvez seja uma tarefa muito mais dolorosa do que o simples pensar.
Seguindo a linha de raciocínio Freireana de que A LÍNGUA É O CÓDIGO DE PENSAR O MUNDO, apoiemo-nos em Lev Vygotsky, para quem os signos, a linguagem simbólica desenvolvida pela espécie humana, tem um papel similar ao dos instrumentos: tanto os instrumentos de trabalho quanto os signos são construções da mente humana, que estabelecem uma relação de mediação entre o homem e a realidade. Por esta similaridade, Vygotsky denominava os signos de instrumentos simbólicos, com especial atenção à linguagem, que para ele configurava-se como um sistema simbólico fundamental em todos os grupos humanos e elaborado no curso da evolução da espécie e história social. Seria, para o pensador, a linguagem uma espécie de cabo de vassoura capaz de transformar decisivamente os rumos da atividade humana. Quando aprendemos a linguagem específica do nosso meio sociocultural, transformamos radicalmente os rumos de nosso próprio desenvolvimento. Para essa linha de pensamento, para a construção do conhecimento e para a formação do homem, são fundamentais as dimensões social e interpessoal. A linguagem é, inquestionavelmente, um fenômeno social. Como tal, não tem nem pode ter condição de imutabilidade e de veracidade/eficácia de um único registro, em qualquer circunstância. Baruch Spinoza afirmava: "Tenho-me esforçado por não rir das ações humanas, por não deplorá-las nem odiá-las, mas por entendê-las". Esse pensamento racionalista torna-se especialmente verdadeiro quando abordamos as diversas variedades lingüísticas de uma determinada língua. Nesse contexto, é oportuno abordarmos o conceito de erro na atualização da língua pelos seus usuários. Nessa área, há certas afirmações equivocadas - que ainda são bastante usuais - para avaliar-se o desempenho lingüístico em geral dos falantes das variantes não-padrão da língua. São afirmações que, além de equivocadas, não são politicamente corretas e, por isso, devem ser evitadas.
Como uma língua é, por natureza, uma realidade social e por isso essencialmente variável, em princípio não há formas ou expressões intrinsecamente erradas. O que há são variações. Assim, caberia a todo falante dessa língua adequar seu discurso a determinadas situações lingüísticas de uso, necessárias à comunicação urgente e eficaz. Dentro dessas variações (desde a norma padrão até a forma mais coloquial possível) há adequação ou inadequação a determinada situação social de comunicação - e não erros. Em princípio, mesmo nos falantes que usualmente utilizam, na maior parte do tempo, a chamada variante padrão, percebe-se também em suas atualizações a utilização da variante coloquial como forma de expressão. A partir dessas observações, usar conceitos como adequação e inadequação, dependendo, é claro, da situação comunicativa em que o falante / escritor está inserido, é mais verdadeiro e menos preconceituoso. Não se pode, evidentemente, incidir no mesmo equívoco que habitualmente se comete - em manuais, gramáticas ou livros didáticos - quando se compara a variante padrão, escrita, da língua, com a variante não-padrão, falada.
Tal comportamento explica-se pelo fato de que alguns (os que se postam como "donos da língua) percebem-na como um bloco monolítico, com uma única possibilidade de realização, e que está estática, tal como uma língua morta. E qualquer manifestação linguística que não siga os padrões do passado (normalmente literários, que são legitimados pelas gramáticas normativas) é traduzida como erro. Marcos Bagno pontua esse comportamento de forma magistral, ao afirmar: "Uma receita de bolo não é um bolo, o molde de um vestido não é um vestido, um mapa-múndi não é o mundo. [...] Também a gramática não é a língua". Além disso, o preconceito lingüístico está intimamente relacionado à imagem que cada um dos falantes tem do outro, e não necessariamente ao grau de conhecimento efetivo que esses falantes possuam do padrão culto da língua. A esse respeito, afirma também Marli Quadros Leite: "O preconceito decorre de incompatibilidades entre a pessoa e o ato que ela executa, ou, ao contrário, entre o ato e a pessoa, incluído aí o discurso. Isso quer dizer, se se tiver uma idéia favorável de uma pessoa, tudo o que ele fizer ou disser pode ser aceito, mesmo se o que disser ou fizer for errado, falso ou impreciso. Inversamente, se se tiver uma idéia desfavorável sobre alguém, tudo o que ela disser ou fizer pode ser rejeitado, mesmo se disser verdades ou se se comportar corretamente". Esse comportamento mental fica muito evidente quando se trata das falas do Presidente Lula, inquestionavelmente idiossincráticas, caracterizando uma língua totalmente nova, a que chamaríamos o "lubês" e da qual diríamos, com o notável articulista Zé Simão, ser mais fácil do que o "ingrês." Como é Lula que fala o "lubês", a sua atualização peculiar, para dizer o mínimo, da língua brasileira é aceita pela maioria dos cidadãos e aplaudida pela mídia. Fica, assim, muito claro que é fundamental que, ao se falar em certo e errado a respeito de qualquer atualização lingüística , atente-se para a existência das variantes lingüísticas, que podem ser eficazes ou ineficazes dependendo da situação social em que são empregadas. Ainda no eixo daquilo que se considera "correto" e "incorreto", é notável o desempenho dos canais de comunicação no que diz respeito ao manejo da língua brasileira e à sua (des)valorização pública. É especialmente chocante a proposta e o desenvolvimento do programa pretensamente cultural "Soletrando", apresentado pelo comunicador (?) Luciano Huck. Um dos alunos, tempos atrás, foi desclassificado, após um desempenho impecável, por não ter incluído o "s" na palavra "enrubescer". Ora, senhor comunicador e senhores professores da banca, que, de forma purista e retrógrada, remontaram ao latim "rubescere" para justificar a desclassificação, sugiro que então passem, em conjunto com a Rede Globo, a ensinar latim ao Presidente Lula et caterva. E sugiro mais: que o programa dê oportunidade a este humilde professor, que entende que se deve estudar uma língua por meio de sua Semântica, para colocar nas cabinas os examinadores e propor-lhes soletrarem três palavras apenas. Não conseguirão. Uma língua evolui com a modernidade, com a criação de objetos novos e novas situações, exigência e demandas. Infelizmente, o Brasil, involui culturalmente porque não investe no professor. E não investe no professor porque não é interessante para as elites dominantes que o mestre, valorizado e exigido na mesma medida, forme alunos capazes e instrumentalizados para o exercício crítico e consciente da cidadania e para intervenções eficazes na sociedade. Na verdade, para eleger o pessoal que hoje se instala vitoriosamente no Planalto, não deve haver professores, não pode haver cabeças pensantes - há que curvar-se o povo humildemente ao sistema político "bolsístico": é o Bolsa isso, o Bolsa aquilo, enfim, o Bolsa-esmola em vez do Bolsa-social. Lembrando o poetinha Vinícius de Moraes: "Triste pátria minha!... Tão pobrinha!" Mas acredito firmemente que o povo brasileiro ainda lhes dará o troco - e talvez não através do voto. Transpondo tais considerações para a realidade de nossas escolas públicas e para o cotidiano de nossos professores, fazemos nossas as palavras de Fernando Becker: "o professor ensina porque aprende. A partir do momento que deixa de aprender perde a legitimidade para ensinar". A verdade é que a escola pública encontra-se hoje em lamentáveis condições, por três motivos principais: O espaço físico está descuidado e o professor dispõe de poucos recursos físicos (papel, retroprojetor, microscópio, computador, softwares, datashow, mapas, globos, laboratórios com instrumentos pertinentes, recursos para viagens, museus, etc.); o professor está desanimado, triste, humilhado, literalmente de cócoras, e tem que enfrentar, freqüentemente, situações-limite para as quais não está preparado: violência, doenças, psicoses, neuroses, heterogeneidade para além dos limites pedagogicamente suportáveis, além de ver condensado no seu salário um desprestígio social inominável; e os alunos revelam problemas crônicos que o modelo escolar vigente vem produzindo há décadas: despreparo do corpo docente, injusta distribuição de renda, desemprego, etc., a ponto de sua juventude, sua capacidade criativa, suas possibilidades cognitivas e afetivas não serem contempladas e aproveitadas pela escola. Nesse contexto, a valorização do profissional de ensino é fundamental para o resgate da escola pública, que já foi a melhor opção para aqueles oriundos de classes sociais menos privilegiadas que desejaram o acesso ao conhecimento e a ascensão social e financeira. Afinal, é o professor que oxigena, que faz a mediação necessária entre o educando e o conhecimento e os valores do mundo transmitidos, como vimos no corpo deste artigo, através de filósofos, pensadores, literatos - hoje todos os "chatos" de plantão. E o importante é que, com timbre aberto ou fechado, que as portas do conhecimento, da cidadania e da solidariedade nunca se fechem. Afinal, hoje em dia, analfabeto, despreparado, é aquele que não sabe dar golpes, que não é adepto da prática dos "mensalinhos e mensalões" e tantas outras formas de ludíbrio do povo e de apropriação dos bens do país. A triste realidade é que no Brasil prepondera uma sociedade burguesa, apodrecida, que oferece acesso à cultura apenas para seus filhos.
Encerraremos nossa conversa com a "alfabetizada" música-poesia do grupo O Teatro Mágico, assinada por Fernando Anitelli:
A Mágramática
Todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser
Todo verbo é livre para ser direto ou indireto
Nenhum predicado será prejudicado
Nem tampouco a frase, nem a crase
Nem a vírgula e ponto final.
Afinal, a má gramática da vida
Nos põe entre pausas
Entre vírgulas
E estar entre vírgulas
Pode ser aposto
E eu aposto o oposto
Que vou cativar a todos
Sendo apenas um sujeito simples
Um sujeito e sua visão
Sua pressa, sua prece
Que enxerguemos o fato
De termos acessórios para nossa oração
Adjuntos ou separados
Nominais ou não
Façamos parte do contexto
Sejamos todas as capas de edição especial
Mas, porém, contudo, todavia
Sejamos também a contracapa
Porque ser a capa e ser a contracapa
É a beleza da contradição
É negar a si mesmo
E negar-se a si mesmo
É muitas vezes encontrar-se com Deus
Com o teu Deus
Senhoras e Senhores
Que nesse momento em que cada um se encontra agora
Um possa se encontrar ao outro
E o outro no um
Até porque
Tem horas que a gente se pergunta:
Por que é que não se junta tudo numa coisa só?
Obrigado ao Dr. Alexandre Vieira dos Anjos, o digníssimo juiz de trabalho da VT de São Joaquim da Barra, pela oportuna pergunta, em plena sala de audiência, pergunta que acabou colocando o professor JM a pensar sobre a gramática normativa da Língua Portuguesa e também pensar sobre o conceito de analfabeto. Os munícipes de São Joaquim da Barra sentem-se lisonjeados com a presença do ilustre magistrado em nossa cidade.
E obrigado ao Jornal Vitrini pela oportunidade de o povo ter acesso a um jornal preocupado com a cultura.
É isso? Estamos conversados hoje?

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